"Reforma na Previdência, sim ou sim"

economia vai demorar para sair da crise, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência e outras. Esta avaliação é do estrategista-chefe da XP Investimentos, o economista Celson Plácido, que fez palestra para advogados em Florianópolis, quinta à noite, a convite da Clamber Investimentos, uma das parceiras da XP em SC. Plácido prevê que o PIB deste ano vai crescer 0,5%, apesar do carregamento negativo do ano passado.
Como avalia a economia brasileira hoje?
O cenário de hoje é de inflação em queda e juros em queda. E corrobora os juros em queda porque a gente esperava queda de 3,5% do PIB ano passado, mas caiu 3,6%. A renda das famílias, no ano passado, caiu 4,2%. Não tem renda, não tem emprego. Então, tem que reduzir os juros mais rapidamente para tentar reaquecer a economia. A capacidade de ocupação da indústria está muito baixa, não há crédito e muitas pessoas estão endividadas. Por isso não há pressão inflacionária. Em 2009, quando o governo incentivou o consumo, o crédito, as pessoas não estavam endividadas e ainda tínhamos um crescimento econômico. Hoje, estamos saindo de uma recessão que só voltará ao PIB de 2014 em 2021. Demora muito porque da metade de 2014 até agora a economia caiu mais de 9%. Então temos que subir 10% para voltar a aquele patamar.
Como será o impacto das reformas?
Acreditamos que as reformas estruturais serão aprovadas, mas os efeitos disso serão para muito longo prazo. A reforma não vai resolver o problema da Previdência do ano que vem, que vai fechar com déficit. Só que você atrai investidor estrangeiro para licitar concessões de infraestrutrura. Um exemplo é o Aeroporto de Florianópolis. Você não pode ter um aeroporto desses em Florianópolis, parece uma rodoviária. Tem que privatizar. É um absurdo ter um aeroporto como esse, não tem um finger. É uma cidade turística. Isso vai movimentar a economia e gerar empregos. A construção gera muito emprego. E é o setor privado investindo, não o governo. A crise, por um lado, gera oportunidade para reduzir o tamanho do Estado.  A gente tem um cenário de queda de juros e de inflação.
Se não aprovarem as reformas?
Se não aprovarem, aí sim teremos um cenário  pior. A gente trabalha com baixa probabilidade de isso acontecer. Se acontecer, não poderemos reduzir juros, a inflação pode voltar no ano seguinte, o que seria um retrocesso. A gente não trabalha com esse cenário ou com baixa probabilidade de ele ocorrer porque como falou o Meirelles (Henrique Meirelles, ministro da Fazenda) ou aprova, ou aprova, é uma necessidade. A gente (XP) escreveu um relatório ontem sobre isso: reforma na Previdência, sim ou sim. É uma reforma necessária e todos os países já fizeram. O que pode acontecer é ter uma mudança na transição, mas todos os países já elevaram a idade mínima para aposentadoria. Não dá para ter medidas populistas. Ai reduz os juros mais rapidamente. Em 2013, foi o ano em que mais se abriu lojas. Era fácil, o juro era barato. Ter retorno no mercado financeiro era difícil, por isso as pessoas iam para a economia real. Hoje o juro está alto. É muito difícil você ter um retorno de 30% num negócio.
Qual é a sua projeção de crescimento do PIB para este ano?
Hoje, o cenário começa a melhorar porque você tem uma queda de juros contratada, as taxas estão caindo e temos uma redução que deverá chegar ao final do ano com a Selic em 9%. Isso faz com que o custo de capital para empresas fique mais barato e elas voltem a investir. Devemos voltar a crescer só no segundo semestre. A nossa previsão de crescimento para este ano é de 0,5%, mesmo com o carregamento negativo que vem do ano passado.  Ano passado foi a primeira vez desde 1996 que a gente teve PIB negativo no agro, serviços e indústria. Em 2014, foi só a indústria, em 2015 foi a indústria e serviços. Este ano, a previsão é de safra recorde, mais de 20% de aumento. Não haverá problema de inflação de alimentos, não temos previsão de problema climático este ano. É o melhor cenário positivo para reduzir os juros.
Qual é o impacto da capacidade ociosa da indústria na economia?
A indústria esta utilizando cerca de 70% da capacidade dela. Então, se ela aumentar a produção em 10%, estará com 77% da capacidade, se elevar mais 10%, chegará a mais de 80%. Não vai crescer muito. Se você crescer 0,5% este ano, 2,39% no ano que vem e depois, 2,5% ao ano, você só vai equiparar, em termos financeiros de 2014, em 2021. Está muito longe para termos problemas da inflação.
O que você tem a dizer aos críticos da reforma da Previdência?
O brasileiro está vivendo mais, há muitas aposentadorias especiais. Outra coisa, tem o beneficio definido. Precisamos ter contribuição definida,o benefício deve vir depois. As pessoas contribuem muito menos e ganham por muito mais anos. A gente estava igual à Grécia. Ela quebrou e elevou a idade. Na Argentina, a idade mínima para mulher é 60 anos e para homens, 65 anos. No Chile é a mesma coisa.  Ou a gente muda para 65 anos para os dois (homem e mulher) ou vamos ter que ter previdência privada. A proposta da previdência beneficia quem começou a trabalhar antes. Para se aposentar com 65 anos, precisa começar a contribuir com 16 anos.
Com a mudança dos juros, as pessoas estão mais preocupadas com suas aplicações. Ainda vale a pena colocar em títulos do governo?
Vale. Mas eu prefiro NTN-B atrelada à inflação do que o Tesouro Direto. Podemos ter inflação no ano que vem. Os juros reais estão diminuindo, mas ainda temos oportunidades para investir.
E quem tem dinheiro do FGTS?
Pelo amor de Deus, tirem de lá e apliquem. O FGTS rende 3% ao ano mais a Taxa Referencial (TR).  Rende muito pouco. Tem taxa surrealista. Pode usar para pagar dívidas e aplicar. Eu não consigo recomendar caderneta de poupança, rende pouco. Se a pessoa aplicar bem (em renda fixa), tem mais dinheiro para se aposentar, aplicar na economia. A poupança rendeu 8,15% em 2015. Você tinha CDB que rendeu 18% com o mesmo risco. A pessoa precisa pensar, investir no longo prazo. Quem recebe o FGTS se tem dívida, paga a sua dívida e depois investe a diferença.
Fonte: http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/estela-benetti/noticia/2017/03/reforma-na-previdencia-sim-ou-sim-9746070.html